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Uma crônica de Natal

São Paulo, 24 de dezembro de 2018. De manhã os burburinhos dos que deixam pra última hora, lotam os shoppings e os supermercados para comprar os presentes e os preparativos da ceia, trânsito caótico, metrô e busão lotados. À tarde o povo fazendo as comidas se prepara para ceiar, em casa ou levando para a casa dos parentes, selfies nas redes sociais pra mostrar ao mundo a roupa nova de natal.

Na mesa: peru ou tender, chester ou frango, pernil ou lombo, bacalhau para quem pode; farofas, maionese, uvas passas e hipocrisias. Se soubéssemos o que nos aguarda, ninguém reclamaria da tia véia perguntando das namoradinhas e dos namoradinhos, a piada do tiozão do pavê fica até engraçada diante de tantos absurdos que estão claros aos olhos de quem enxerga.

As famílias brasileiras que se quebraram em outubro, algumas não se reunirão pra não ter um tiroteio ao invés de fogos de artifício, algumas tentam se recompor e reúnem alguns membros. Pavê e torta de climão de sobremesa, “tem que pisar em ovos, nada de falar de política, nada de falar do Lula preso e Laranjal do Bolsonaro”, “decoração vermelha tá abolida porque vermelho é coisa de comunista!” A tia véia tem que tomar cuidado ao perguntar sobre namoro, pois vai que ela pergunta “e os namoradinhos?” E a sobrinha responde “não tia, é namoradinha!” , se ela for da ultra-direita, vai falar assim “prefiro uma sobrinha morta a uma sapatona!”, “ai que absurdo essa filha da Gretchen querer ser homem!” Um terreno fértil para chamar discussões e discussões aleatórias.

Parentes que se reúnem para um banquete lauto e música profana: falar de política não pode, mas falar mal de certas pessoas pode, principalmente se for daquele parente esquisito e diferentão, a ovelha negra da família.

Natal em 2018 é presente, comida, papai noel, playstations, iphones, compras, dívidas, compras, impressionar pessoas, compras, bens materiais, compras, shopping, compras e mais compras…

Tudo isso acontecendo e o aniversariante fica esquecido, largado em segundo plano. Jesus Cristo bebê é só uma figura meiga enfeitando o presépio ou a árvore de natal: compaixão, reflexão, espírito natalino, amor ao próximo, sentido verdadeiro da data já não existem mais. Nas casas dos brasileiros parvos não procuram saber porque Cristo nasceu numa manjedoura e se soubessem certamente quereriam queimar a ele e seus pais, assim como querem queimar os imigrantes refugiados que chegam aqui, ou pior, tentariam ressignificar o motivo pelo qual os pais de Jesus estavam fugindo dos romanos e diriam “se tavam fugindo boa coisa não eram”, “Herodes é mito!” “vai pra Roma!” ou “vai pra Jerusalém!”, “esse José e essa Maria eram uns comunistas e por isso tavam fugindo!”

Não precisa nem acreditar para considerar que Jesus Cristo foi tão revolucionário, que o calendário foi baseado a partir da sua chegada e partida da Terra. Seus ideais 2018 anos depois, ainda estremecem as estruturas e são incompreendidos. Justiça social para os pobres e oprimidos “vinde a mim os cansados e oprimidos que eu vos aliviarei”, distribuição de renda “mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”, protegeu uma mulher prostituta que seria apedrejada “aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra”, uma filosofia pré hippie, do amor como base das relações humanas independente de lugar, religião, etnia “amar ao próximo como a ti mesmo”.

2018 anos depois vemos a excrescência e a derrocada da humanidade. As pessoas se julgam e se matam por serem pretas, brancas, amarelas, pardas, cabelos roxos, serem gays, serem deficientes, etc. 2018 foi o natal da cisão: a cordialidade do brasileiro foi esgarçada, de alguns foi um livramento, mas de outras pessoas foi decepção sentida. Isso se reflete nas ruas e nos corações das pessoas. Estamos duros, apagados, paralisados, nada mais nos comove tanto. Talvez seja hora de olhar pro presépio e pensar no que passaram Maria e José quando Cristo nasceu, para ter um pouco mais de compaixão e empatia com quem é diferente de nós, não precisa ser cristão, nem crente, só humano.

Se Cristo voltasse hoje seria julgado exatamente da mesma forma, com o adicional de ser chamado de petralha comunista. Inclusive por aqueles que falam sobre ele nos empreendimentos comerciais, que costumam chamar de igrejas. Malacheias malafaias, apostolus valdomirus, ss soares, pedir maiscedos “perdoa Pai eles não sabem o que fazem”.

Talvez não fosse crucificado, porque no Brasil a Carta Magna ainda proíbe a pena de morte, mas seria torturado cruelmente, assim como foi antigamente pelos romanos com a anuência dos judeus. Seria assim com a anuência dos brasileiros, aqueles que vão a igreja por vaidade.

Nós somos imperfeitos e nos falta misericórdia. Que Deus, ou nós mesmos nos ajudemos, olhemos para dentro de nós. Temos que gestar o ano todo o tal “espírito natalino”.

Fazer boa ação não é só dar donativos, é lutar por justiça social, para que as pessoas tenham oportunidades iguais, para que todos tenham vidas dignas através de seus trabalhos e rendas. Se vivemos no regime capitalista da livre propriedade, deveríamos lutar então para que uns não explorassem os outros, que não esmagassem os outros. Esse é um sentido válido para a filosofia de Jesus Cristo, se isso é ser comunista então pasmem! Ele foi o primeiro comunista relatado na História da Humanidade.

Um Natal de reflexão é o que precisamos.

Foto por Bich Tran em Pexels.com

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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