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Uma aventura na 94ª São Silvestre

*Dedico esta crônica a todos os meus amigos e amigas corredores que me incentivam e me inspiram na arte de correr.

Hoje pela primeira vez fui a uma São Silvestre, ainda não como corredora mas como espectadora. Eventos de corrida são mágicos, a endorfina coletiva cria um sentimento de irmandade e pertencimento ao grupo de corredores, mesmo aqueles que correm devagar sempre chegam onde desejam e são bem-vindos.

2018 foi meio ingrato pra mim na corrida, não tenho corrido com constância devido a uma lesão no quadril, tive que ficar compulsoriamente sem treinos de longa distância e alta intensidade logo eu que já estava correndo 10K, agora é a preguiça de voltar a treinar regularmente que me persegue. Ir assistir aos corredores subindo a Brigadeiro e chegando à Paulista me deu um ânimo, a motivação que eu precisava para voltar a correr direito.

Me senti como uma das participantes, vendo aquele povo cruzar depois de 15 Km árduos a linha de chegada, naquele sol escaldante das 10h30 da manhã, fui capaz de sentir a energia contida na explosão dos 400 metros finais até cruzar a linha. A corrida é assim: você pode estar morrendo no final do percurso, andar, rastejar, trotar, mas nunca parar e quando se vê a poucos metros o relógio da chegada, o seu corpo recebe uma descarga de adrenalina em que você seria capaz de correr até mais alguns quilômetros se houvesse necessidade.

A brisa da corrida é melhor que a brisa de um baseado. Parece dicotomia, mas é endorfina: suor, sofrimento, vontade de desistir, mas o esforço continuado vai mexendo com a sua mente e a vontade de superar seus próprios limites é maior que o cansaço, sua mente te conduz: há quem ouça música enquanto corre, há quem cante, há quem carregue bandeirolas, se fantasie para festa de suor e superação, há aqueles que oram pra Deus conduzir até o final e há quem não faz firulas e só sai correndo como se não houvesse amanhã, mas no final todos os corredores terminam uma corrida rindo que nem bestas sem nem saber o porquê. É a endorfina óbviamente, já foi mais que comprovado que correr é benéfico à saúde, a sensação de missão cumprida é gratificante. Saber que você venceu o seu maiores inimigos que são o seu medo e os grilos da sua mente também são partes importantes nessa endorfina.

São milhares de sensações no átimo de tempo entre os metros finais e a linha de chegada. Parecem um orgasmo, parecem um sentimento de comunhão individual e coletiva; a pele arrepia, às vezes saem umas lágrimas dos olhos, o fato é que depois de correr nunca mais você enxerga a vida da mesma forma. Correr é uma terapia, uma ajuda motivacional que livros de autoajuda não são capazes de contemplar. O mais de difícil de correr é começar, cada mini desafio imposto a si mesmo e cumprido é encorajador, primeiro serão só 50 metros, depois só 5 minutos, depois 10, 20, 1 km direto sem parar… Uma São Silvestre… A ultramaratona é o limite (para alguns).

Compartilhei da felicidade existente no brilho do olhar de cada um dos que completaram aquela corrida. A São Silvestre não é uma maratona, mas o percurso não é dos mais fáceis e com o sol de verão fica ainda mais complexa. Pelo que conheço do trajeto são 15 km com cara de meia maratona e com a simpática subida da Brigadeiro no percurso final que faz até o mais habilidoso atleta de elite sucumbir, às vezes a corrida é decidida nos metros finais dessa ladeira. 1800 metros de subida constante e no seu fim íngreme, parece que morre mas não chega ao fim!

Em que pese a maioria dos inscritos de cútis clara, perfil de bem nascidos que desembolsaram R$185,00 de inscrição e um esquema de segurança de chefe de Estado para acessar o pelotão de largada, e o desencorajamento da Yescom em permitir a presença de pessoas avulsas, as laterais das avenidas não estavam tão cheias como normalmente, os populares antes iam em peso torcer e dar força aos corredores, pelo menos no ponto onde estive estavam mais concentrados os familiares dos participantes, para filmar e fotografarem a glória de cada um dos seus.

Apesar de reparar esses detalhes oriundos da “tecnização” da São Silvestre e a consequente exclusão dos corredores mais pobres a cada ano, na medida do possível, quando estamos correndo somos todos iguais, irmãos de tênis, não importa mesmo a sua convicção política ou religião ou classe social, entre outras coisas que nos separam. Percebi nas corridas em que estive, que as pessoas se ajudam com palavras de incentivo quando vêem alguém tentado a desistir do trajeto e às vezes até um auxílio físico para conduzir as pessoas que já não conseguem mais correr por causa das cãibras, o importante é terminar a missão e os corredores se unem e se incentivam mutuamente, assim o fardo parece que fica muito mais leve para todos e o auxílio dado é genuíno em sua intenção altruísta naquele instante.

Ver os corredores jovens, velhos, cegos, cadeirantes, iniciantes, ultramaratonistas, etc, me fez lembrar que eu sei correr, que eu posso fazer isso e é só transpor a linha invisível da preguiça e treinar para que quem sabe em 2019, eu sinta legitimamente a pele arrepiar na avenida Paulista, só que como corredora. Fechar um ano difícil me purificando das coisas ruins, coisas que só a corrida é capaz de proporcionar.


Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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