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Visão do paraíso

Parece uma piscina mas é mar – Arraial do Cabo RJ

O título é inspirado no homônimo livro de Sérgio Buarque de Holanda, em linhas muito genéricas, o livro fala sobre a visão dos portugueses quando chegaram aqui, consideraram que era o paraíso na terra.
Obviamente que não é apenas a visão onírica abordada na obra, por isso recomendo a leitura.

Me senti como eles quando cheguei em Arraial e vi aquele mar, parecia mesmo um sonho. Mar azul claro, água transparente e o céu azul limpíssimo, o ar respirável diferente do que é na selva de pedra. Me dourei ao sol, um dourado bonito.

Viagens nos marcam pra sempre, ainda não viajei tanto como quero e conheço alguns lugares, mas tenho certeza de que essa é a viagem mais marcante até o momento. Foram experiências que nunca tinha vivido nas outras que fiz. Situações e sensações especiais e surpreendentes, me emocionei ali.

Quando viajo, gosto de observar os costumes, os sotaques e tento não parecer tão turista, tento imergir na vida do lugar como se fosse uma local: usar transporte público, ir ao mercado, viver frugal enquanto estou por lá.

A região dos Lagos fica a aproximadamente duas horas do Rio de Janeiro mas a diferença é notória. Os nativos de Arraial parecem não ter o medo opressor da violência das grandes cidades, a cidade tem cerca de 35 mil habitantes. A maioria dos comércios não possui portas de ferro, são portas de vidro. Quando anoitece e o comércio fecha as portas dá pra ver o que tem lá dentro, alguns até deixam os luminosos e as TVs ligadas! Passando vídeos sobre os passeios de barco por exemplo, essa é a única coisa que critico, porque é desperdício de energia elétrica.

Arraial não tem vida noturna, se procura paz e sossego é o lugar ideal, se quer agito é melhor ficar em Cabo Frio ou em Búzios. Pra mim a intenção era só descansar da megalópole, não fiz rolês noturnos. Fiquei lá por quatro noites, mas em duas é possível explorar as praias e é imprescindível fazer o passeio de barco, ah o passeio de barco (Suspiro)…

Parece um cruzeiro, cerca de 5 horas de duração, passa pelas praias da Ilha do Farol, Pontal do Atalaia, Praia do forno, Gruta Azul. Tem um bar dentro do barco com drinks, cerveja, petiscos e muitos argentinos – a propósito – a Cidade é repleta tanto de turistas quanto de proprietários de hostel portenhos. No barco em que estive falavam português e espanhol com o sotaque argentino “la plaja”… Lá conheci o Bruno, carioca de Búzios, sotaque e papo envolventes; bebemos cerveja, caipirinha, tiramos fotos e demos uns beijinhos. Ooooohhhhhh que delícia! Tive que viajar quase 800km e despretensiosamente fiquei com alguém. Trocamos WhatsApp, ele diz que virá à selva de pedra em novembro. Se ele vier e tiver meu contato ainda, maravilha! Se não, foi um lance de viagem, uma recordação gostosa desse lugar lindo.

Lá no barco, vc levanta o braço com um pedaço de pão e as gaivotas vêm pra pegar. E ele navega naquele azul, ora esverdeado perto das praias, ora mais escuro em alto mar. Quase chorei de emoção e tive certeza de que Deus existe, normalmente chamo a força superior de Deus (mesmo não sendo cristã), pode denominar como quiser. O fato é que existe sim uma força superior, ao olhar a natureza e sua beleza estonteante, feita por ela, sem intervenção humana.

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A vegetação na região dos Lagos é rústica, selvagem: solo arenoso com vegetação quase rasteira e muitos cactos denominada caatinga fluminense, lembra um pouco o deserto dos filmes dos EUA, em conjunto com o mar muito azul dá esse toque rústico e ao mesmo tempo sofisticado, numa junção perfeita, mesmo em praias com maior ocupação de pessoas e imóveis, é sui generis. A Praia Grande é exemplo disso e a melhor praia de Arraial. Percebi que na região dos Lagos a maioria das praias têm em comum areia fofa, branca e fina, exige um esforço a mais pra caminhar (até faz barulho nos pés, enquanto anda).

Passei também por Cabo Frio, que fica a uns 20 minutos de distância de Arraial, tem busão direto a cada quinze minutos. É uma cidade bem maior e com mais opções da vida cosmopolita. Preciso explorar melhor essa cidade e farei isso na próxima visita. É um lugar muito bonito também, em que pese as ruas estreitas de difícil circulação de ônibus e motoristas que estacionam na rua, sem se preocupar se o busão conseguirá passar ou não por ali. “Cold Cape” tem um canal que corta a cidade de um lado e do outro as praias, a propósito, Cabo Frio tem esse nome porque as águas são mais frias que as do Rio de Janeiro por exemplo. Existem muitas praias pra explorar, como só passei um dia lá e no bate volta, tive que escolher onde ir. Passei na Praia do Forte, que é a praia mais central da cidade portanto a mais cheia e urbanizada, mesmo assim bonita. Na ponta ficam as pedras que dá pra subir e tirar ótimas fotos e o Forte São Mateus inaugurado no século XVII e que hoje é desativado para fins de vigilância, mas é aberto para visitação.

Em Cabo Frio também tem praias menos badaladas, mais afastadas como a do Peró e a das Dunas, mas pra mim, a melhor de todas é a Praia Brava, pra acessar através de uma trilha simples, de 15 a 20 minutos de duração. É possível ir pela Ilha do Japonês, pegando uma trilha menor e a praia brava como o nome já diz, tem ondas fortes. É uma pequena faixa de areia entre rochas dividida entre surfistas e um pouco mais a frente, ficam os naturistas.

Nunca tinha nadado pelada antes e é libertador! Na hora em que cheguei na área naturista só tinham 3 pessoas, cheguei tirando o biquíni sem cerimônias e é a melhor coisa poder se jogar na água sem ter que se preocupar, se está ou não pagando peitinho, não tem que ficar arrumando a parte de baixo do biquíni pra tirar areia; me senti uma criança, deixei a ondas fortes baterem em meu corpo, estendi a canga, tomei cerveja e sol pelada por aproximadamente duas horas. Depois começaram a chegar homens e pelo sim pelo não, resolvi bater em retirada, porém muito satisfeita com a experiência.

Além desse momento emblemático, tive duas vivências inéditas nessa viagem. Peguei carona no Blablacar e dormi na casa do meu amigo virtual, que estava conhecendo pela primeira vez, não fosse a receptividade de ambos, a viagem não teria acontecido.

Mark, o motorista, é uma ótima companhia pra conversar, dirige bem, me fez sentir à vontade. Fomos e voltámos juntos pois as nossas datas coincidiam e então fechei a carona com ele. No começo fiquei super cabreira, afinal nunca tinha usado Blablacar antes e mesmo com avaliações positivas ainda estava com a pulga atrás da orelha, principalmente porque na ida a minha carona partiu de madrugada. O medo foi embora e relaxei no decorrer da viagem, não estava só, teve outras pessoas que pegaram carona também, na ida e na volta. E voltando foi ainda mais legal super me identifiquei com as passageiras, uma delas também mora na concrete jungle, trocamos Instagram e vamos combinar um rolê de forró em breve. Nunca pensei que seria tão legal pegar carona, apesar das reservas iniciais, foi uma oportunidade única de conhecer novas pessoas e experiências, uma troca de aprendizagens. Já combinei com o Mark pra quando ele for pra Floripa (que ainda não conheço), me avisar e a gente compartilhar mais essa viagem; se coincidir minha escala de folga com as datas já era!

E não posso deixar de falar do meu amigo querido, que confiou e abriu os braços e as portas da sua casa, o Walter, corredor ultramaratonista, que jogou tudo pro alto e deu um remake na vida. Um carioca da gema que ficou de saco cheio da falta de perspectivas profissionais e da qualidade de vida precária da capital do Rio recomeçou em Arraial do Cabo. Ele se mudou recentemente, vende o Suco de Vida na Praia Grande (comprem, é realmente muito bom inclusive pra manter o bronzeado perfeito).

Não tenho palavras pra agradecer o respeito, a hospitalidade e a companhia dele pra me guiar em Arraial. Desde 2017 nos conhecemos, a princípio era só amizade pelo Facebook, em grupos de corrida e pra transpor o virtual para o real há uma distância longa. Claro que além da corrida temos em comum a visão de mundo sobre vários aspectos e isso fortaleceu nossa amizade e nos aproximamos, amizade verdadeira e sem base pra especulações, pois alguns obtusos acham que isso não existe entre homem e mulher!

Ele ainda está trocando almoço pela janta pra sobreviver lá, isso claro pq a mudança é muito recente, mas considera que fez a escolha certa e eu concordo com ele. No começo é difícil, mas com persistência tudo dará certo e persistência é sua característica: Trabalha na praia vendendo e mais ainda em casa fazendo os sucos, já está dando certo meu amigo!

Pra quem já dobrou a maratona do RJ (correu 84km em aproximadamente 6h meus caros!), não vai esmorecer pela dificuldade inicial de se adaptar às mudanças.

Essas duas situações que relatei demonstram que ainda existem pessoas legais, honestas e sinceras nesse mundo, estamos tão fechados em nós mesmos que por vezes é difícil acreditar, mas graças a Deus nem todos são assim…

Ao voltar para a terra do caos e da desordem, com metrô lotado e pessoas selvagens, sinto uma falta imensa desses momentos que vivi. Foi intenso, mágico e especial, fecho os olhos e suspiro de saudades…

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

2 respostas em “Visão do paraíso”

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