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Pensei que não era machismo e era.

Essa semana Cristina Junqueira, uma das donas do Nubank, apareceu na capa da Forbes Brasil, a lista é das mulheres mais poderosas do país, ela está grávida e isso causou um furor. Normalmente mulher grávida em capa de revista ou é revista de celebridade ou sobre maternidade.

Óbvio que é algo a visibilizar, para além do romantismo forçado de uma mulher ser mãe. Mulheres executivas também sofrem agruras para chegarem ao topo nas empresas, muitas abdicam da maternidade e outras quando tentam conciliar perdem o emprego e o status que um dia obtiveram.

Cristina Junqueira e a referida capa

Com a repercussão desse feito em diversas páginas, surgem relatos das mulheres comuns que não são donas de banco, sobre a vida laboral pós gravidez e maternidade. Nada incomuns são os casos de assédio moral, demissões pós licença maternidade, descumprimento da empresa em garantir os direitos da mãe lactante e a dificuldade de recolocação de mulheres mães no mercado de trabalho.

Ao ler essas histórias lembrei da minha e vou contar.

Em 2009 eu morava em Marília e era uma jovem universitária, procurava emprego pois não tinha conseguido bolsa permanência estudantil e a ajuda de custo que meu pai me dava era insuficiente.

Nesse ínterim engravidei, foi um susto! Senti vontade real de me jogar na rodovia que passava em frente à moradia, para liquidar o fracasso que senti quando descobri a gravidez indesejada. Dias depois comecei a digerir a realidade e como teria que seguir em frente.

Como eu já tinha experiência na área de call center antes de morar no interior, consegui um emprego na área numa empresa de internet via rádio. A empresa era oriunda de uma escola cristã que expandiu sua atuação. Abase é o nome. Tinha um mailing interessante e atendia um número considerável de pessoas do centro-oeste paulista. Eu estava acostumada a trabalhar em call center grande e impessoal, foi um impacto trabalhar naquela empresa que mais parecia um puxadinho familiar, onde todo mundo se conhecia de perto e você tinha que falar diretamente com o dono para pleitear condições de trabalho.

Uma vez perguntei pras mulheres qual Sindicato as representava e elas riram da minha cara, dizendo que isso não existia lá. Um detalhe que me lembrei agora, no atendimento só trabalhavam mulheres.

Fui obrigada a mentir logo na entrada, quando fiz o exame admissional e me perguntaram a data da última menstruação, disse que havia menstruado no mês anterior, precisava de dinheiro e os fins justificavam os meios.

Algum tempo depois precisei passar em consulta do pré natal e no interior parece que levam isso muito a sério, os agentes de saúde iam até sua casa marcar os procedimentos. Marquei a minha consulta na UBS bem próxima ao trabalho, durante o horário de almoço para não atrapalhar em nada (detalhe: eu trabalhava de segunda a sexta em horário comercial), mas a consulta passou um pouco dos minutos e tive que pegar a declaração para abonar.

Entreguei, ok, no final do expediente a chefe foi bem direta e me perguntou se eu estava grávida, porque ela viu que o carimbo do médico que me atendeu era de um ginecologista. Não tive mais como esconder e confirmei que estava grávida e fazendo pré natal, eu não me lembro se ela perguntou mais coisas.

Não demoraram muitos dias e depois dessa conversa a chefe maior me chamou em sua sala. Essa mulher tem um nome que não consigo me lembrar de jeito nenhum, mas sei que não era um nome unissex tipo Jaci ou Valdeci, ela tinha nome de homem mesmo e não era uma mulher trans, afinal é uma empresa católica né! Detalhes à parte, ela me disse que a Abase era uma empresa cristã e preocupada com a família, mas que infelizmente teria que me demitir por eu estar na experiência e não atender o perfil que eles buscavam.

Que ironia! Uma empresa cristã e preocupada com a família demite uma mulher grávida, que naquele instante estava à mercê da Providência Divina. Fiquei muito mal, preocupada e sem nenhuma perspectiva, até procurei saber se eles podiam me dispensar como fizeram e infelizmente sim. Em contrato de experiência gravidez ou acidente de trabalho não são fatores de estabilidade para o funcionário; no meu caso pagaram as verbas rescisórias corretamente e tchau e benção!

Por sorte passei num concurso público que havia feito há tempos e mesmo grávida fui admitida, as diretrizes do serviço público ainda são diferentes nesses casos. Mas, esse é apenas um dos diversos relatos de mulheres que são dispensadas durante a gravidez, algumas são humilhadas por essa condição.

Esse é o machismo estrutural, não parece mas é e por estar estruturado nas relações sociais parece algo natural. Tão ou mais pernicioso que as formas mais divulgadas de machismo.

Abaixo deixo um link de uma reportagem preocupante sobre as mulheres que nem podem tirar licença maternidade, porque precisam de dinheiro para sustentar a família

Clique na imagem para acessar a reportagem na íntegra.

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"