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escreva na quarentena política

O Brasil não pode parar! (Distopia brasileira)

São Paulo, março de 2020.

Dia 12 da quarentena.

Minha erva acabou e ainda não estou abstinente, mas pra suportar o Brasil só fumando maconha mesmo…

Nem um dadaísta, nem uma pessoa na brisa de alucinógenos seriam capazes de imaginar o que passamos. Tá tudo tão louco que o Ronaldo Caiado, o Ronaldo Caiado minha gente! Virou fada sensata, relembrou seu juramento a Hipócrates e criticou veementemente os que insistem em andar na contra mão do isolamento social, inclusive o dublê de presidente. E olha que há pouco tempo atrás eram carne e unha, almas gêmeas.

Há uma semana, o ignóbil que chupinha o Planalto ocupou 5 minutos da transmissão de rádios e TVs para falar absurdos. Quem tem o mínimo de noção, seja da esquerda ou da direita, ficou estupefato, indignado, passado com o caminhão de fezes que o elemento despejou em rede nacional. Uma diarreia verbal, um discurso criminoso instigando as pessoas a saírem do isolamento. A intenção genocida ficou claríssima, se alguém duvidava da malignidade desse ser, ela foi confirmada naquele dia.

Eu fiquei tão indignada que não tive estrutura psicológica para escrever sobre, no dia do ocorrido.

E o discurso do secretário do Capiroto surtiu efeito, as ruas ficaram mais cheias nos dias seguintes. Infelizmente tive que sair de casa para ir ao supermercado, delivery é quimera para a classe C, a taxa de entrega sairia ao custo de uns 6 itens a mais da lista de compras. Era sábado, céu azul, sol e calor, a periferia parecia comemorar um feriado. Ao voltar para casa pude ver, dentro do carro, o zé povinho nas calçadas fazendo festa, fofoca, ouvindo música aglomerados, ruas cheias de carros da plebe indo visitar os seus, a janela do meu carro estava aberta e senti cheiro de churrasco. Uma realidade paralela no meio da pandemia.

Essa pessoas devem achar que são imunes e imortais, algumas estão de fato desesperadas para ter o que comer, outras fazem bravatas tétricas. Hilux na carreata da morte, dentro dela uma mulher diz que vai morrer de fome, que temos que voltar a trabalhar. Vamos trabalhar minha gente! Eia! Bora alimentar a vontade de foie gras da dondoca; o dinheiro não se faz sozinho!

A dona Dalva, que trabalha no Panamby, pega o CPTM Guaianazes e se espreme, corre o risco de morrer de Covid-19, desce em José Bonifácio e pega mais um ônibus que a deixa a um quilômetro de casa. Tem 60 anos, é doméstica, 5 filhos (dois presos e 3 trabalham informalmente), 6 netos na primeira e segunda infância, mora na Baixada do Sapo. Ela não pode se dar ao luxo de isolamento social porque é a única que tem renda certa numa casa de três cômodos e dez habitantes. Seus patrões também não fizeram questão de dispensá-la, grupo de risco só para eles.

O Coronavírus até o momento, fez mais pela revolução socialista do que as organizações de esquerda poderiam imaginar; sinto imensa felicidade quando os especuladores e os super ricos perdem bilhões em um dia. Tudo na vida tem dois lados e esse é o lado bom da pandemia. Esses tipos conquistaram tudo à base de pilhagem: nos usando de escada através da super exploração, com condições de trabalho insalubres e salários parcos. Caro leitor, estamos no Brasil e não nos países nórdicos!

Estou em home office, isolada compulsoriamente, porém muito feliz com isso. Não gosto de lidar com gente, tem sido um descanso mental para mim. Gostaria de trabalhar para sempre em casa.

Mas os boletos, ah os boletos… Esses nunca ficam em quarentena…

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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