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escreva na quarentena política

Um novo normal?

São Paulo, Abril de 2020

Dia 36 da Quarentena

O jardim da morte de Hugo Simberg

Os dias passam iguais, como eternos feriados. Nós isolados já perdemos a noção das horas, dos dias da semana e do mês.

Anteontem cortei o cabelo, bem curto. Quando estou muito revoltada a primeira coisa a qual renuncio são os cabelos, não tenho esse apego, afinal, crescem novamente.

Depois de 5 anos sem ensaiar nenhum acorde peguei meu violão. Estou castigando as cordas, pobres coitadas! A ansiedade nesse caso foi útil, apesar da dor nos punhos e nos dedos, não foi tão difícil relembrar algumas notas.

Ontem foi um dia bastante triste, o tio da minha amiga sucumbiu, mais uma vítima desse Corona maldito! Uma dor inimaginável ela está sentindo em sua alma. Há 2 meses ela perdeu sua mãe para o câncer e agora o tio… E o pior é saber que ela não poderá se despedir dele devidamente.

Não consigo mensurar o tamanho do seu sofrimento e nem abraçá-la posso, mal posso sair até o mercado…

Seu tio e mais 406 pessoas partiram no mesmo dia. Uma estatística absoluta, fria. 407 histórias foram abruptamente interrompidas, 407 pessoas importantes para alguém. Na contramão do senso de responsabilidade, Dória escroque vai reabrir os comércios e o pandemônio que mal começou se arrastará por muitos dias ou meses, por causa dessa ganância desmedida dos concentradores de riquezas do país.

Alguém disse que a Casa Grande lamenta muito a situação, mas, tem comida e quer saber quando o Engenho voltará a funcionar, para atender seus caprichos? Será que a elite do mundo é tão mesquinha e desprezível quanto a nossa?

A onda do momento tem sido questionar o conceito de normalidade. Nada será como antes e existirá um novo normal, os otimistas dizem que será um mundo de consumo consciente, da divisão solidária das coisas, da não exaltação das coisas que até anteontem eram prioritárias dentro do nosso modo de vida.

Porém, realista que sou beirando ao pessimismo, não acredito nessas coisas. Talvez por um tempo, o consumo desenfreado dê lugar a ecoconsciência, pois antes da pandemia, eram necessários recursos de 1 Terra e meia para dar conta de mais de 7 bilhões de pessoas, mas todo o resto de coisas que as pessoas anseiam eu duvido. Duvido que exista solidariedade, senso de divisão, a miséria e a fome atacarão onde já atacam e ampliarão seu leque do mal. Alguns bilionários já estão dando seu jeito de ganhar mais dinheiro com a desgraça alheia, através das doações alheias sob seus CNPJs, irão garantir uma dedução poupuda no imposto de renda do próximo ano.

Esperar solidariedade entre as pessoas, é melhor esquecer. Tem gente que sai às ruas e pouco se importa com quem está lá porque realmente precisa. Um exemplo disso são os corredores, grupo do qual ainda faço parte, pelo menos virtualmente. Silenciei os grupos, deixei de seguir no Facebook, estava irada ao ver posts diários de treinos durante o isolamento social e o povo dizendo assim “Ai não pega! Ai quase não tem risco! Ai eu treino sozinho!” A irmandade do tênis caiu por terra nessa pandemia “meu bem-estar acima de tudo, meu interesse acima de todos”.

Existem outros exemplos, temos Barbies nazifascistas tupiniquins, que defendem abertamente a marcação das pessoas que não querem se expor ao vírus, para que sejam completamente desassistidas de algum suporte do Estado. Algo ainda mais sombrio do que já existe nos bairros carentes, eles já têm uma amostra diária da falta de políticas públicas…

O novo normal em minha visão, é cada um por si e Deus por todos. Esmolas e caridade sim, justiça social e redistribuição de renda jamais! E quem garante que teremos alguma normalidade? Por quanto tempo teremos que nos isolar? Será perene ou intermitente? Será que a pandemia vai acabar? A peste negra hi-tech contém a mesma incerteza do século XIV e em alguns pontos do Globo, o mesmo teocentrismo da Idade Média; o Brasil claro está nesse lugar. A que ponto chegamos? Analisando a nossa história, vivemos um círculo vicioso que para não se tornar um looping eterno, tem que ter Nós como protagonistas do motor histórico. Transformar o prognóstico ruim da nova normalidade em uma situação de fato, cooperativa entre as pessoas.

O conceito do individualismo está introjetado em nosso ser, o sistema econômico foi muito eficiente para tal inculcação.

Enquanto escrevia esse texto as paredes do poder em Brasília estão ruindo. Moro da capa preta pediu o penico, pegou a viola e foi embora do “Ministério da Justiça”. Encobrir os filhos do chorume vá lá, agora dividir o governo com mensaleiros aí já é demais para seu ego. Seu fã clube é bem estruturado e então ele sairá com algum respaldo popular. Greenwald ri e a TV Globo chora. Vai pela sombra e cuidado onde o Sol não bate!

Em tempos de instabilidade política no Brasil, não dá pra comemorar muito essa queda pois não sabemos se virá algo pior depois.

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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