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amor escreva na quarentena política

Não tão soltos, ou, ninguém é inocente em SP

São Paulo, 782 de Maio de 2020

Dia 70 da Setentena.

Para Thaís.

Dois meses e dez dias.

1- O médico disse que o tratamento está evoluindo muito bem, a medicação está sendo mais eficaz do que ele pensava.

Mas o doutor não tem remédio pra coração partido. É igual a virose, só o tempo que cura, não há o que fazer tem que doer.

2- “Olha só essa reportagem! A Suíça mostra ao mundo a pobreza que tenta esconder, em frente aos vidros dos comércios luxuosos, fila de estrangeiros (alguns ilegais) para pegar comida! Agora olha essa outra foto aqui, que linda!”

Vamos debater? Por que tudo perdeu o sentido e a cor? Por que ainda quero falar contigo? Não sei, não sei, eu sempre penso que seria mais fácil esquecer… Vou fumar um baseado e me transpor para fora de mim.

3- Será que percebeu a fase da alegria e da dor, que tem no texto que te dei?

4- Acho que essa Quarentena/Sessentena/Setentena está me deixando mais louca do que já sou. Uma montanha russa de emoções… E agora, tem essa dor que insiste em doer, mais incômoda que o calo no dedinho do pé, dentro do sapato apertado.

5- Quando você falou comigo depois de tudo, senti inúmeras coisas, menos alegria. Um aperto no peito, tremores e uma solidão absurda. Seu espectro transformou minha solitude em solidão. Tudo passa, mas, nas 24 horas do meu dia, parece que passam 12 meses, coexiste uma dor antiga de 10 anos, ou seriam 10 dias?

Não sei se você é tranquilo mesmo, ou cínico… Mas nem pude curtir minha tristeza. Foi engano. Dois dias depois, eu nem esperava e você apareceu, quer manter minha atenção, para que eu não disperse? Fui tão útil em aplacar sua solidão na Quarentena?

Fucking engano! Por essa eu realmente não esperava! Eu esperava qualquer motivo de sempre e não uma porra de engano! Foi engano, coincidência, ligeiro equívoco, mal- entendido, um erro grotesco…

Deixa, deixa, deixa eu dizer, o que penso dessa vida, preciso demais desabafar.

Suportei meu sofrimento de face mostrada e riso inteiro.

Se hoje canto meu lamento, coração cantou primeiro…

Cláudya

6- A vida é ilógica e não quero mais entender. Vou pegar o carro e dirigir por aí, sem destino. Dirigir me acalma, vou zerar a playlist de todas as músicas de fossa que conheço e vou dirigir até quase esvaziar o tanque.

Viajo dentro dos limites municipais e passo por lugares que nunca fui, ou fui há dezenas de anos atrás. Começo explorando os rincões da Zona Leste e onde achei que era mato, é zona urbanizada. Sobrados coloridos, alguns geminados, outros tantos ladrilhados. A arquitetura periférica é muito parecida, seja em Itaquera, seja no Complexo do Alemão, ruas asfaltadas, esgoto encanado e a “favela tradicional” está cada vez mais às margens, nos lugares ocultos da cidade; a classe C se importa muito e se esmera para que suas casas tenham uma boa aparência.

O Estado é pouco ou nada presente nesses bairros, então por que as pessoas atenderiam ao pedido institucional da #ficaemcasa? Sem nenhuma contrapartida segura de manutenção de renda para isso?

Comércio pujante, barulhos, movimentação contínua. Não precisamos mais ir “à cidade” comprar o que queremos. Pessoas correm e caminham despreocupadas nas avenidas com canteiro central, ambulantes nos semáforos vendem quase tudo o que precisamos ter dentro do carro, mas, não vendem nenhum produto eficaz para esquecer. Esquecer essa porcaria de país, essa desgraça de desgoverno federal e as falácias do Dória escroque, esquecer esse momento de ilusão infundada, em que mergulhei para arrefecer essas tristezas globais e essa ilusão agora dói muito, superlativa.

7- Sinto palpitações e muita vontade de chorar. Entro na primeira rua à esquerda, paro o carro rente à guia e ligo o pisca alerta. Lágrimas caem. Não aos borbotões, caem aos poucos e isso me irrita! Inferno! Nem chorar decentemente eu sou capaz. Aí respiro fundo e vem outra onda de tristeza, choro de raiva do meu choro insuficiente e de repente, as lágrimas caem como cachoeira.

8- Desligo o pisca alerta porque a choração é incontrolável. Chorei com gosto, tudo o que represei consciente e inconscientemente, olhos inchados e nariz vermelho. Agora preciso dirigir um pouco mais pra desinchar a cara e voltar pra casa sem ter que dar explicações adicionais, só explicar que os pneus estão sujos de tinta de guia, porque meu pai vai perguntar sobre isso, ele sempre reclama disso. Que desalinha o carro, que só motorista cabaço suja os pneus dessa forma, mas não é intencional, nem precisa bater o pneu é só encostar de leve que já suja, mas ele não entende…

Bem, dos males o menor, prefiro explicar a teoria dos pneus sujos do que falar a verdade sobre meu coração, ninguém entenderia.

Se um vai perder, outro vai ganhar.

É assim que eu vejo a vida e ninguém vai mudar.

Eu daria tudo, pra não ver você chumbada, pra não ver você baleada.

Pra não ver você arreada.

A mulher abandonada.

Mas não posso fazer nada, sou só um compositor popular.

Sérgio Sampaio

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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