Categorias
amor esquerda política

De uma mulher para homens.

*Escrevo esse texto, baseada em minhas experiências e percepções pessoais. Não sou dona da verdade, deixo o que julgo ser uma contribuição adequada na luta contra o machismo.

Homem,

Acredito que reconhecer um erro estrutural é um grande passo para o processo de autoconhecimento e reflexão próprias.

Nas redes sociais, muitos homens aparentemente se incomodaram com a postura de invalidação que as instituições têm, quanto ao tratamento de casos de assédio e violência contra mulheres.

Por isso muitos pediram desculpas, pelo sofrimento infligido a nós e algumas mulheres responderam que só desculpas não resolvem. De fato, não podemos desmerecer o cansaço da mulher ter que ficar provando a toda hora sua verdade, isso com certeza motiva essa reação momentânea de que as desculpas não são suficientes.

No entanto farei uma ponderação a esse respeito, Eu aceito suas desculpas porém elas não são suficientes, são apenas o primeiro passo. É importante observar isso, você já saiu da sua zona de conforto.

Para que a desculpa se torne reparação é preciso partir pros passos seguintes: primeiro se transformar, de dentro pra fora, trabalhar seu eu para se tornar um homem menos machista evitando reproduzir comportamentos estruturais do machismo.

O machismo é estrutural e pernicioso, inclusive com você homem. Vamos fazer um exercício mental? Certamente você já passou por uma ou mais situações das que relatarei abaixo, pelo menos uma vez na vida.

  • Na sua tenra idade, quantos vezes sua mãe fez seu prato? Quantas vezes você deixou de fazer um serviço doméstico porque isso era coisa de mulher?
  • Quantas vezes você não brincou de casinha por, supostamente, ser uma brincadeira só de meninas?
  • Desde quando você ouve que homens têm que ser fortes o tempo todo, que chorar e/ou demonstrar emoções é coisa de “maricas”?
  • Quantas vezes você quis gritar pro mundo suas angústias e inseguranças e foi tolhido por esse pensamento de que um homem de verdade jamais faz isso?
  • Quantas vezes na sua adolescência e juventude, você teve que ficar com alguma garota que nem queria tanto, para não passar como “viadinho” perante o grupo?
  • Quantas vezes você teve que demonstrar virilidade para alguma mulher e não recusar um sexo, para não parecer “gay”?
  • Quantas camisetas masculinas cor de rosa, você não comprou justamente por causa da cor?
  • Quantas vezes você reprimiu elogiar a beleza de outro homem, só porque isso poderia parecer “coisa de bicha”?
  • Quantas vezes você fez cantadas grosseiras, comentários degradantes para mulheres, ou gays, só porque estava em grupo com outros homens?
  • Se você é casado e tem filhos, quantas vezes negligenciou dos cuidados da casa e das crianças, deixando tudo nas costas da mulher?
  • Quantas vezes você já pensou que sua única atribuição em casa é levar o dinheiro do trabalho e o resto é tudo obrigação da sua companheira?

Sim meu caro, tudo isso aí é machismo estrutural! Ele é milenar e por isso até ontem essas coisas eram naturalizadas e note, qualquer “deslize” nesses pontos ainda é visto como ter masculinidade frágil.

O machismo anda de mãos dadas com a homofobia, transfobia e outras ginias e fobias. Não é mimimi, coisa de feminazi. São coisas que vêm de gerações e agora você que está vivendo nessa aqui, tem a oportunidade de pensar suas atitudes futuras, analisando profundamente esses pontos do passado.

A transformação começa em você, depois você transmitirá isso aos outros homens. O discurso tem que ter verdade e não repetição de palavras bonitas.

A verdade do seu discurso antimachista estará contida em suas ações.

Vou te propor algumas coisas para ajudar nesse processo de transformação, não é fácil pra ninguém. Mas se você tem boa vontade de pensar nesses aspectos, já é um avanço; saiba que tudo na vida é tentativa e erro, não tenha medo de errar e de tentar novamente buscando o acerto, a vida é assim e combater o machismo também.

Como não cair no erro do discurso machista?

Provavelmente alguém já te disse “não faça com os outros aquilo que não quer que façam com você”, certo? Isso é o princípio básico de um termo que está super em voga agora, a empatia.

Então para não reproduzir o discurso odioso de que as mulheres que rompem o ciclo do assédio estão querendo autopromoção, se coloque no lugar dela. E se fosse você?

  • Imagine se você sofresse um assédio moral, ou sexual em tom de brincadeira (é sempre assim), só por você ser homem. Constrangimentos a ponto de te fazerem mal ao entrar no ambiente de trabalho e que continuam ao sair dele; sua capacidade intelectual ser julgada por sua roupa, coxas, bunda, ou seu perfume? Chato isso né?
  • Aí imagine que tudo isso destruiu tanto a sua mente, por ter sido uma prática repetitiva no seu ambiente de trabalho, que você resolveu dar um basta nisso e procurou os possíveis meios para resolução.
  • Como resposta nenhuma resposta, você foi invalidado em seu relato, dizendo que você é histérico, que está fazendo tempestade em copo d’água, que uma terapia resolve isso e pior, depois da denúncia você começa a ser perseguido, como o louco que quer chamar a atenção, a situação chega a um ponto incontrolável e você, ou se demite, ou é demitido por isso. Tenso né?
  • Agora, vamos piorar um pouco mais a situação, imagine que você foi vítima de violência física, apenas por ser homem, aí você vai para delegacia, ao chegar lá o delegado te manda sossegar o facho e falar a boca, porque tudo isso não passa de frescura! Humilhante né?

Pois saiba que tudo isso acontece com milhares de mulheres no Brasil e no mundo, esses são apenas alguns exemplos, existem muitos outros…

Se para você se imaginar nessa situação não parece factível, imagine se fosse com uma mulher muito próxima a você. Imagine cada situação dessa com ela, o sentimento de tristeza e revolta deve aflorar mediante situações tão nefastas…

Procure sempre fazer esse exercício empático antes de apontar o dedo, evita julgamentos desnecessários e você estará se tornando um homem sensato e com atitudes antimachistas.

Repita isso quantas vezes for necessário.

Depois disso, converse com os outros homens que você conhece, propondo essa autoreflexão.

Evite comportamentos primitivos só porque está em grupo de amigos. Tá no barzinho e quer flertar? Nada de grosserias! Invista no contato visual, no sorriso, é educado e bonito. Se a mulher que te despertou o interesse está na mesma sintonia que você, ela vai te retribuir.

Se está na balada, nada de pegar à força no cabelo ou no braço de uma mulher, não estamos mais na era pré histórica!

Se o contato visual não é tão simples como num ambiente mais ameno, primeiro se coloque em evidência para que ela te veja, seja gentil se for abordá-la, diga a ela que você gostaria de conhecê-la melhor, se podem conversar.

Isso não é uma abordagem assediadora e provavelmente a mulher será mais acessível a você, mesmo que recuse sua investida, ao invés de te olhar feio, agradecerá a sua gentileza e provavelmente desejará boa sorte em sua busca.

E você como um homem inteligente irá seguir pleno e na certeza de que está fazendo o certo, talvez a noite seja generosa contigo e você fique com alguém, não desanime.

Se depois de uma conversa franca com os seus amigos a respeito do machismo, eles acharem que isso é desnecessário e ridículo, talvez seja o momento de repensar as suas amizades.

E por último mas não menos importante: se uma mulher te procurar para relatar algum episódio de assédio e machismo, escute-a. Não faça perguntas tendenciosas, do tipo “ah vc tem certeza de que isso não é coisa da sua cabeça?” E etc.

Várias vezes, o que uma mulher fragilizada por essas violências precisa é ser ouvida a sério, sem juízo de valor.

O que você pode fazer nesse caso é encorajá-la a denunciar no tempo em que ela se sentir segura, quando ela rompe esse silêncio e te procura pedindo ajuda, além de ser um ato de coragem, ela procura apoio pra seguir em frente em sua resolução. Você pode auxiliar na orientação para essa mulher, para que ela se sinta acolhida e se ela te procurou é porque confia em você.

Cuidado com as falsas generalizações, muitos machistas pegam casos isolados de pouquíssimas mulheres que se aproveitam da luta feminista, para atender seus interesses escusos. Não caia nesse discurso! Na vida tem pessoas boas e ruins de todos os lados, independente de gênero, ideologias e etc. Pra pessoas que usam das lutas pra promoção pessoal, existe a justiça e a Lei do Retorno, essa é implacável.

Não nos cabe julgar as situações, quando essa vontade bater, volte ao exercício da empatia.

Lembre-se de que a luta contra o machismo não é exclusiva das mulheres. Ao praticar essas coisas que propus, você já está plantando a semente de uma sociedade menos desigual, não é do dia pra noite e é uma transformação constante.

É isso meu caro, espero do fundo do meu coração que essas palavras possam te ajudar.

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s