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São Paulo, Abril de 2021

Dia 387 da Trezentena.

Eu estou muito cansada.

E estou horrorosa!

Vi uma foto minha de antes do pandemônio e eu era tão bonita!

Cortou o meu coração ver aquela imagem e comparar como estou agora. Ultimamente tiro fotos e quase nenhuma me agrada.

Antes eu tinha uma pele lisa, até um pouco invejada. Hoje estou com a pele baça, várias manchas, linhas de expressão e olheiras. Acho que só não tenho (ainda) fios de cabelos brancos, mas, do jeito que as coisas estão, não será difícil disso acontecer…

Envelheci uma década em um ano. Me sinto desleixada e nem tenho vontade de me arrumar. Nunca fui fã de muita maquiagem, mas sempre gostei de usar batom e fazer as unhas. Meus lábios vermelhos de outrora deram lugar a uma cor pálida, meio cinza e meio arroxeada de quem fuma demais, minhas unhas estão há meses sem esmalte e cutículas ressecadas de tanto usar álcool 70 pra desinfetar as mãos.

Há dois anos atrás, eu tinha cabelos cacheados, brilhosos, de amarelo perolado e que refletiam os raios de sol. Agora estão curtíssimos, por uma situação meramente operacional, já que é obrigatório lavar toda vez que chego da rua. Nunca tive muito apego capilar e já usei cabelo curtinho outras vezes, mas, uma coisa é escolher cortar e outra é ser obrigada pelas circunstâncias a fazer isso.

Eu também tinha um sorriso largo e um brilho no olhar. Hoje o brilho nos meus olhos é de um ser vivente: aquele brilho que distingue os olhos vivos dos olhos mortos, nada além disso.

Também tinha alguma esperança no coração, agora qualquer trisco me afeta demais. Agora, a amargura e a tristeza são minhas companheiras, além do saudosismo nefasto.

A máscara destruiu o meu charme e quando vou sair, nem tenho vontade de variar dentre as centenas de brincos que tenho. Antes do descenso, sair sem brincos pra mim era sinônimo de sair nua, ou com alguma parte do corpo faltando.

Hoje a máscara tapa meu rosto e mascara um pouco da minha tristeza.

Até os meus perfumes franceses e brasileiros estão evaporando com o passar do tempo e pouco habitam a minha pele cansada da atualidade.

Nunca, jamais, imaginei que viveria num cenário tão apocalíptico, distópico… E o que mais dói é viver na pandemia o pandemônio: doente de Brasil nem o ansiolítico está dando conta, nem a cachaça, nem a maconha. Se nossa dignidade não tivesse sido alijada, pra passar por esse momento tão horroroso, as coisas estariam menos insuportáveis.

O que me resta agora é a saudade de ser livre. Nada será como antes.

E especular se um dia voltarei a ser tão bonita como era, é possível renascer em vida? Por que ser morta-viva, infelizmente, é possível.

Saudades, saudosismo, liberdade, vida, frescor, leveza. Um tempo distante, cenários que não existem mais…

Vivemos igual aos condenados, em cárcere privado por crimes que não temos certeza de ter cometido. Nossa pena é a danação eterna, enquanto durar o triunfo do mal.

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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