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esquerda política

Machismo entranhado nas relações sociais e trabalhistas.

8 de março de 2022. Sem condições de fazer um 8M temático, transcrevo abaixo o relato que recebi de uma mulher metroviária:

Mulher trabalhadora do transporte público só se ferra e não tem nenhum tipo de resguardo da empresa em que trabalha, caso seja agredida física e verbalmente.

Há um mês fui vítima de agressão verbal que por pouco não se tornou física, durante o expediente.

Era um lindo sábado de sol e estava tudo tranquilo, até que chegou um louco em surto psicótico que queria ir ao banheiro.

Mas a estação em que trabalho não tem banheiro público, o entorno é repleto de população em vulnerabilidade social e dependentes químicos, vários casos de assédios e roubos. Por isso acharam “melhor” acabar com os banheiros públicos de lá.

Quero parabenizar o gestor que teve essa brilhante ideia! (Contém ironia).

Mas voltemos ao caso, o indivíduo chegou e perguntou se tinha banheiro. Eu respondi que naquela estação não havia, só no comércio. Ele a princípio dizia coisas incompreensíveis, como se estivesse resmungando. Eu fiquei na minha e não entrei na do indivíduo, quem trabalha com público sabe que tem horas que é melhor ignorar provocações. Uma pessoa normal pediria pra sair e ir ao banheiro lá fora e pediria também pra eu passá la de volta (o que a gente sempre faz).

Mas o indivíduo não era normal e as palavras ininteligíveis se transformaram em estranhas ameaças. Infelizmente me lembro do que ele me disse “olha pra mim!” Eu olhei “a partir de agora aonde você for eu estarei lá, de olho em você!”

Sim foi exatamente nestes termos! Só agora que passou percebi que era um homem surtado, porém na hora que estava acontecendo não era possível elucidar dessa maneira. Eu achei estranho e senti medo. Quando ele disse isso tinha um olhar horripilante.

Era o meu primeiro dia naquele lugar e do jeito que o cara falou, eu achei que ele de fato circulava diariamente por ali.

Ato contínuo, o indivíduo começou a gritar coisas desconexas, misturadas com eu quero mijar! e depois começou a me xingar de vagabunda, filha da puta, entre outras coisas mais que não me lembro. E totalmente descontrolado e aos berros me fez repetir a informação de que infelizmente não tem banheiro aquela estação.

Nisso ele socou o vidro da SSO, sorte que não quebrou!

Eu estava sozinha na hora, estação pequena não tem funcionário e você fica vulnerável.

A situação entre a primeira pergunta e o soco não deve ter durado mais que 2 minutos, porém o depois parecia uma eternidade.

Na hora do soco eu só recuei e peguei um gancho de metal que temos, pra abrir os alçapões, se ele viesse pra cima eu ia acertar nele. Ele não avançou, de certa forma o instrumento o intimidou, até confundiu com um taser, por isso gritava que eu não ia dar choque nele, que se eu fizesse isso ele ia me matar depois.

Eu fiquei atônita, mesmo com aquele gancho na mão eu sentia as pernas bambas e estava paralisada. Tremi o corpo inteiro, liguei pro batalhão da PM que tem ao lado da estação e claro que não atenderam! Chamei os seguranças da estação que estavam jantando. Na hora só pensei neles pois eram os únicos que estavam mais próximos e podiam me ajudar. Mesmo atabalhoada consegui me trancar na SSO, até que alguém chegasse.

Os transeuntes nada fizeram senão olhar…

E para meu azar naquele instante estava sem meu celular, que havia deixado carregando dentro do vestiário.

Você tá com medo de mim sua vagabunda?! Ele gritava e tinha um olhar esquisitíssimo ao me perguntar isso, acho por umas três vezes, como eu tava trancada e com o gancho na mão eu disse que sim, que tava sim.

Parece que ele sentia prazer no meu medo…

Mas a história ficou pior depois.

Como a dupla teve sua janta interrompida, vieram atender com má vontade. Os colegas de estação homens também chegaram e nada fizeram, só ficaram com uma cara de “ué” (bem, eles não são pagos pra intervir, os seguranças sim).

A dupla que deveria proteger sobretudo uma colega de trabalho em perigo iminente, era composta por um diretor de base sindical que supostamente faz e acontece, na verdade ele gosta mesmo é de um proselitismo político; o outro é um coroa já cansado dessa correria de ser segurança.

A misoginia do indivíduo ficou evidente quando os homens chegaram, porque comigo sozinha ele gritava e xingava e ameaçava, depois ele baixou o tom, entretanto continuou me desrespeitando na frente dos caras. Disse que eu era uma gorda de bosta e que eu tava “facinha”, esse termo não foi usado de maneira sexual, com certeza tem relação com outra coisa que não sei qual é.

Os seguranças atenderam como se fosse uma pessoa comum, só faltaram servir cházinho com biscoitos pro indivíduo. Pra eles, o cara disse que era PM aposentado por problemas psiquiátricos, ele não foi sequer qualificado na abordagem, só olharam a funcional e só isso mesmo!

Durante os xingamentos que ele me fez mesmo com eles ali, não tiveram coragem de moralizar, de ao menos dizer de maneira austera pro indivíduo “baixa sua bola e respeita a funcionária!” Pelo contrário, fui ridicularizada, minimizaram a gravidade do fato e o tal segurança militante teve a pachorra de justificar pro cara que não é “porque ela está num mau dia de trabalho que você pode fazer isso”…

Não qualificaram o cara e deixaram ele ir embora tranquilamente. E pior que causou e nem foi ao banheiro!

O “militante” tentou justificar depois a atuação pífia, “pra manter a minha integridade física”…

Me senti desamparada e frustrada, extremamente desprotegida, percebi que não tinha com quem contar de verdade.

O que era da minha alçada eu fiz naquele dia mesmo, BO de ameaça e um relatório interno. Até mencionei que queria as imagens das câmeras pra tomar medidas jurídicas contra o cara que me ameaçou, mas não é simples assim. Terminei o turno aos trancos e barrancos. No outro dia, apavorada, não fui trabalhar e fui ao médico, que me afastou por alguns dias até que a situação esfriasse.

Atendimento psicológico para stress pós traumático não estou tendo, a atribuição do meu chefe imediato era de fazer um registro interno de acidente de trabalho a ser encaminhado pro SESMT, não foi feito na hora, só após 20 dias de atraso e só ocorreu porque eu fui atrás de atendimento da medicina do trabalho, pedindo encaminhamento pro tratamento psicológico. Só que sem esse registro em tempo hábil nada pôde ser feito.

O documento interno dá lastro pra abertura de CAT, que é um registro externo do INSS referente a um acidente de trabalho. Porém ambos tem prazo de máximo de 24h úteis após o acidente para notificação. Como o supervisor não fez o primeiro documento, o SESMT arquivou o caso como “quase acidente.”

Se eu quiser que a empresa banque o tratamento psiquiátrico e psicológico, precisarei judicializar essa questão.

O BO ainda não representei e tenho pensado se vale a pena fazer isso, sob risco de novo aborrecimento e até mesmo de humilhação, afinal de contas mal investigam crimes graves, o que dirá uma “simples ameaça” de um PM aposentado por problemas psiquiátricos e que toma remédios controlados?

Em mais de uma década trabalhando no transporte público, nunca havia passado por situação igual: de violência gratuita, misógina e desamparo por parte de colegas e supervisão. Às vezes discussões acontecem, mas absolutamente nada nesse nível! Geralmente são relacionadas ao serviço prestado, alguma falha pontual, etc.

Estou em crise de ansiedade, choro, sinto prostração e o medo ainda ronda, continuo lá naquela estação. Tenho tentado ser forte porque tenho família pra sustentar, mas uma vez que não tenho minha integridade física garantida pela empresa, já estou providenciando o porte de arma não letal, não posso pagar pra ver, se eu morrer a empresa continua, mas os meus familiares ficam sem sustento!

E assim seguimos, todos os dias mulheres metroviárias sofrem com algum tipo de violência, simbólica, psicológica às vezes até física durante o trabalho e quando precisam de ajuda têm sua queixa minimizada, resumida a simples “mau dia de trabalho”.

Fica o alerta. Defenda a si mesma, porque ninguém vai te ajudar! É só você por você mesma!

O louco é um indivíduo alto, aproximadamente 1,80, pardo escuro, gordo, barba grisalha por fazer, olhos castanhos, usava boné e não deu pra ver a cor do cabelo. Também não sei o nome do cara, não me deram.

A dor da vítima é solitária.

Agora vocês entendem porque muitas mulheres não registram queixas? Correr atrás dos direitos é muito cansativo e eles vencem pelo cansaço, pela minimização do fato e pelo silenciamento.

Atualização dia 16/03/2022: após encaminhar este relato a vítima teve que ser internada, por conta do pico de crise de ansiedade, entretanto, a internação acabou transformando o registro de quase acidente em acidente de trabalho típico e ao menos, ela conseguirá pleitear o tratamento psicológico custeado pela empresa, em decorrência desse acidente. Que ela tenha sucesso e consiga superar esse momento tão difícil.

Nomes preservados a pedido da vítima, por questões de segurança e responsabilidade jurídica.

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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