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escreva na quarentena política

Epílogo: um ano depois e não sou mais quem fui

São Paulo, Agosto de 2022

Dia 365 do semi aberto.

09h17

Recomecei há um ano atrás cheia de esperança e com uma vontade sincera de ser uma pessoa melhor. Ano novo, vida nova, energias recarregadas e o resgate de uma inocência quase infantil; cheguei a acreditar que a vida fora das grades caseiras estaria melhor.

Os meses foram passando e a realidade esfacelou minhas expectativas: as coisas pioram constantemente e meu brilho inicial foi se perdendo até ser substituído pela opacidade dos fatos.

No Brasil o fundo do poço tem alçapão e a existência é cada dia mais insuportável, em comparação ao princípio da pandemia. Situação financeira se deteriora rapidamente também, mesmo na ativa. Ir ao supermercado tem sido um suplício mensal: uma vez me deu um bode e chorei voltando das compras, não ganho mal e cada vez compro menos, gastando mais. Cartão de crédito parcelado, carne parcelada se quero comer bife.

Nossa! Que merda de vida!

Aí comparo com a vida de pessoas que ganham um salário mínimo e precisam sustentar uma família, fico ainda mais triste! Claro que a minha vida financeira não voltou ao mesmo patamar pré pandêmico e apesar das substituições, malabarismos e endividamentos pra passar o mês, nunca passei necessidade de coisas básicas. Até aqui a Providência Divina tem me ajudado…

Mas com preços acintosos da comida e da gasolina até dar uma volta despretensiosa pela cidade, para distrair, não posso dar e o único deslocamento permitido é casa-trabalho trabalho-casa. Literalmente um regime semi aberto.

14h39

Vidas de privações, a minha e a dos outros, algumas com menos e outras com muitas, porém todas de origem muito clara: não temos governo, estamos ao relento, sem emprego, sem qualquer coisa que revigore a produção nacional e o empreendedorismo é de fachada; milhões de CEOs de Mei vendem o almoço pra garantirem o jantar e vice versa, diariamente. Além da inflação galopante, litro de leite a 7 reais, a que ponto chegamos? A cerveja tá mais barata que um litro de leite! Será que é intenção oculta levar a tenra idade ao vício?

17h25

Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem

Drummond

Acho que tudo isso é um prato cheio pras pessoas projetarem suas frustrações nas outras, já que elas não podem xingar e socar diretamente os donos do poder, então elas pegam algumas categorias profissionais como a representação desses mandatários. A gente que recebe esses rejeitos fica completamente desolada, com as energias desalinhadas e com ódio das pessoas. “Só tudo isso” pode explicar o Estado de Natureza Selvagem que vivemos, as pessoas querem se sobrepor às outras custe o que custar, é um negócio feio de ver.

Às vezes o pensamento apocalíptico é muito atraente pra explicar tamanha selvageria, porém acho que esse negócio de sofrimento em conta gotas é muito chato e já demorou pra vir o meteoro acabar com tudo.

18h47

Depois de ter sido agredida no trabalho e não receber amparo de quem é treinado pra me proteger perdi completamente o prumo e a esperança em qualquer coisa, não tenho mais prazer em viver. Todo o percurso que fiz pra ser alguém melhor foi por água abaixo, sinto profundo asco das pessoas e me tornei um iceberg, imutável e implacável durante o expediente. Quero que todo mundo se foda e não tô nem aí pra ninguém, a indiferença como instrumento de autopreservação.

22h52

Em 37 anos de existência, nascida e criada aqui sempre gostei de ser brasileira, acreditava nas nossas instituições, achava que era possível melhorá las. A ultra esquerda me chamava de reformista/legalista e eu tinha isso como elogio. Hoje me tornei quem sempre critiquei e acho o fundo do poço convergir com os ideais da ultra.

Tento me consolar pensando que vivemos uma situação extrema e que exige medidas extremas. Nunca fui cirandeira e muito menos radical, sempre fui progressista, mas, com esse parasita no poder todas as minhas convicções caíram por terra e acho que já demorou pra ter uma convulsão social séria por aqui pra destituir todos esses pilantras do poder.

Como nada acontece, não sei se por causa da água ou, por causa da domesticação religiosa, pela primeira vez acho que a única saída é o aeroporto.

É a primeira vez que tenho vontade real de sair do Brazil e me sinto ultrajada do meu gentílico. Tenho pesquisado, pois preciso me preparar minimamente pra dar o fora daqui, afinal não vou sair pra lavar prato em terra estrangeira, até o Paraguay deve estar melhor que esta pocilga e me apetece.

23h59

Tanta devastação e falta de perspectiva me deixam completamente niilista. Acho que nada vai melhorar, mesmo quando o despresidente for chutado do Planalto. Ele vai, mas o espíritos de baixa frequência que trouxe, não vão. Haja sete ervas pra limpar aquele palácio e a nossa vida, também sinto pena do pessoal que acha que a partir de primeiro de janeiro do ano que vem o Brasil se tornará a capa da Sentinela.

Essas coisas todas e desilusões pessoais acabaram com a minha pele, estou ficando velha e não gosto nem um pouco disso… Não aceito! Nunca imaginei que um dia me tornaria a louca dos cremes, mas o tempo rouba a pele viçosa da juventude e a gente fica inconformada com essa ação do tempo.

Olheiras, manchas, pele baça, linhas de expressão, cara triste e cansada. Estou pior que há um ano atrás e acho que essa mudança é irreversível, infelizmente.

06h08

Amanhece mais um dia,alheio às nossas inquietudes.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

(…) É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Drummond – A flor e a náusea.

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Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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