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Os discos da minha vida VII (encontros e despedidas)

Discos 6 – Milton Nascimento Clube da esquina 1972 e Cantar Gal Costa 1974

Essa semana foi um baque muito grande para os amantes da música brasileira. No mesmo dia (9/11) perdemos a Gal Costa e o Rolando Boldrin e ontem (13/11) Milton Nascimento se despediu, em vida, dos palcos.

Não consegui comprar o ingresso da sua última turnê porque esgotou em minutos; ainda bem que tive a oportunidade de vê- lo ao vivo num festival de inverno de Paranapiacaba.

Essas coisas me fazem refletir sobre a efemeridade humana. Alguns vão me dizer “O que você tá falando?! Os dois primeiros viveram muito e o Milton já tem 80 anos!”

O que quero dizer é que essas pessoas atingem um patamar que parecem que se tornam “imorríveis”, imortais se tornaram pela obra atemporal que criaram. Uso o termo imorrível mesmo, no sentido de que parece que nunca vão morrer.

São tantos anos que essas pessoas entram em nossas casas, embalam com suas canções momentos da nossa vida que se tornam parte de nós e quando morrem parece que morreu alguém muito próximo da gente, a tristeza é genuína.

Somente a Gal que não tive a oportunidade de ver cantando ao vivo, o Miltão como já disse, vi num show em Paranapiacaba, acho que em 2012/2013, não me lembro ao certo. Sei que tinha ido com uma colega da faculdade assistir ao show…

Quando eu soube que o Rolando Boldrin morreu, memórias que estavam em meu inconsciente foram descortinadas, nubladas é verdade. A primeira memória é dos tempos de criança, ele fazia propaganda do Cimentcola Quartzolit, muito tempo depois veio o programa Sr. Brasil, na TV cultura.

Ainda bem que hoje temos a internet e juntei esses elementos nublados da memória com as ferramentas de busca; tive a oportunidade de vê-lo uma vez, na gravação do seu programa lá no Sesc Pompéia. O ponto de partida foi a lembrança da Tereza Cristina, a Rita Ribeiro e outra cantora faziam um trio muito bonito. Naquela época eu só conhecia bem a música da Rita.

A memória é falha e eu não tinha certeza se já era mãe ou não. Busquei e achei o vídeo lá no YouTube, foi em 2009 e eu nem tava grávida ainda. Google seja louvado!

A música é intrínseca à minha existência, sempre tem um disco ou uma canção que sintetiza uma fase da minha vida. Música é vida! Quem diz que nunca precisou de artista pra nada, além de imbecil está morto por dentro.

A arte é intrínseca à existência humana.

Enfim os discos:

O primeiro namorado tinha uma coleção de vinis e abriu a minha mente, foi uma história de amor complicada, porém o legado positivo foi o de ampliar o meu conhecimento musical e aguçar a minha curiosidade de descobrir músicas e isso permanece até hoje em mim.

Quando me mudei pra Marília, pra fazer ciências sociais na UNESP, esse desejo de descoberta estava aflorado. Eu tinha 24 anos saí da casa dos pais, abdiquei do privilégio de ser uma patricinha periférica, tomei um choque de realidade e passei perrengue com pessoas que até então eram estranhas pra mim, foi um divisor de águas na minha vida.

Estávamos todos no mesmo barco, as dificuldades e privações que enfrentamos foram doloridas, ao mesmo tempo que foram graciosas, por causa da união que tínhamos o fardo não ficava tão pesado de se carregar. Tenho amizades com algumas pessoas dessa época, justamente porque nos conhecemos dessa maneira, alegrias e tristezas compartilhadas, muita intensidade de emoções.

Aos domingos os moradores das diferentes casas se juntavam, cada um com uma coisa e fazíamos um almoço/jantar fenomenal. Às vezes as festas ficavam restritas a uma casa, o que não era muito difícil de acontecer, já em média eram de 8 a 10 estudantes em cada alojamento.

Sob céu azul, luz do sol ou do luar cheio de estrelas a gente ficava em audições musicais. Várias noites ao sons de cds e MP3 que ouvíamos exaustivamente, o Clube da esquina foi um deles. Acho que a música tema dessa temporada na moradia estudantil da UNESP Marília é Nada será como antes.

Realmente, nunca mais foi a mesma coisa…

É incrível como uma música pode dizer tanto em apenas em três minutos.

A influência dos Beatles é perceptível nesta canção, a estrutura melódica lembra muito a música Getting better.

Esse disco é excepcional, é lindo demais! Música, letra, arranjos, não é à toa que foi eleito o melhor disco brasileiro de todos os tempos, quiçá um dos melhores do mundo! Teve a participação de Wagner Tiso, Beto Guedes Toninho Horta e Lô Borges.

Destaco também as canções Nuvem cigana, Trem Azul, Trem de doido e Um gosto de sol, é até difícil escolher só essas porque o disco todo é uma obra primorosa e sublime concebida em tempos tão sombrios. Isso me faz pensar que a tristeza é (realmente) combustível das maiores expressões artísticas.

Na mesma esteira vem o disco Cantar, da Gal Costa.

A gente ouvia muita coisa da Tropicália lá no interior, tanto que não me lembro de um disco específico dela nesta época, porém sintetizo neste disco, que é o meu preferido dela.

Fui conhecendo a sua obra mais profundamente algum tempo depois, quando já era mãe e balzaquiana. A verdade é que não sou tão desbravadora dos artistas do mainstream, prefiro o lado b da música brasileira. Mas ao escutar sua obra com atenção tive uma surpresa agradável e pude entender porque é uma das maiores vozes da nossa música.

Deste álbum destaco Barato total e Lágrimas negras, que foi revisitada recentemente por Marina Sena.

Cantar, tocar, escrever e resistir, Gal fez tudo isso, sempre se reinventou e não parou no tempo.

Achei a muito corajosa por fazer um dueto com a Marília Mendonça, eu torci o nariz quando ouvi pela primeira vez a música que cantaram juntas, uma mescla de breganejo com batida pop; ao contrário das músicas desse estilo que são marcadas pela pieguice barata esta aborda o sofrimento do amor preterido com sutileza e sem menção à bebedeira, algo repetitivo do gênero.

Menção honrosa Vide vida marvada – Rolando Boldrin

Diferente dos idiotas atuais, que seguem em manada e sequer sabem a gravidade do que estão pedindo, o ruminante da música em questão é o homem do campo que se iguala ao bovino em questão dos sentimentos mal resolvidos, e os fica ruminando por dias e horas, assim como os ruminantes que ruminam por dias e horas a fio o seu alimento.

Ao mesmo tempo em que ele repele os maldizeres dos mexeriqueiros, que dizem que ele vive e toca mal, porque não sabem o que ele vive e o que se passa em sua casa e em seu ser.

Gosto dessa música porque acho o refrão marcante e melodicamente acho que a flauta e viola estão encorpadas, numa junção perfeita que fazem o ouvinte arrepiar durante a audição. Pelo menos é assim que me sinto ao ouvir esse clássico da música regional brasileira, o sertanejo profundo, o resto é ruído.

Vendo tanta gente indo embora,guardando os microfones, ou pegando o trem em direção ao panteão dos artistas é inevitável pensar no peso da idade. Não somos mais jovens, a geração dos nossos conhecidos e familiares está indo embora.

É uma verdade inconveniente que mais cedo ou mais tarde a gente tem que lidar com ela, é uma certeza da vida, ainda assim seguimos.

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

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Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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