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Uma década perdida

São Paulo, Agosto de 2020

Dia 153 da Cententena

Completo uma década dedicando meus esforços, saúde e juventude pra empresa e não fui promovida. Cheguei ao ponto de interrogação e me tornei quem mais temia: a pessoa antiga de empresa que há muito tempo faz a mesma coisa, estou a um passo de cruzar a fronteira da amargura.

Poderia fazer do limão uma limonada? Poderia, mas, não consigo encarar o meu trabalho como uma viagem antropológica e completar 10 anos fazendo o que não gosto me torna um fracasso retumbante. Gosto só da grana que recebo no final do mês, mas ultimamente nem isso tá sendo garantido.

Aí o leitor pergunta “como você tem coragem de ficar tanto tempo fazendo isso e reclamando?” Inseguranças, incapacidade própria, medo de me arriscar, boletos e um filho, ele é apenas 5 meses mais velho que esse emprego.

No sentido de realização profissional, estou muito infeliz, insatisfeita e incompleta, neste tempo de pandemia senti saudade de tudo, exceto de voltar pro ambiente de trabalho, em nenhum dos meus sonhos e vislumbres apareceu o ato de estar trabalhando, não tenho pensado em como será o retorno; nas vezes em que parecia que ia acabar a Quarentena eu sofria antecipadamente, a ansiedade me atacava e de maneira involuntária, palpitações e falta de ar, o sono já ficava ruim e conforme os dias se passavam sem nenhum email revogando o afastamento, meu corpo e mente acalmavam.

Por essa ótica, eu me sinto tão feliz de poder descansar a minha mente, aos poucos estou recobrando a minha saúde mental, se eu pudesse escolher gostaria de trabalhar em casa pra sempre.

Não é nada contra os colegas e sim com a política da empresa: a situação vai de mal a pior, com “gestores” que recortam conceitos da Gestão de Pessoas e Administração ao entendimento que lhes convém.

Há muitos anos a cultura e o clima organizacional vêm se deteriorando e o sentimento geral é de ver o sentido do seu trabalho esvaziado, dia após dia. Depois enchem a caixa do email corporativo dizendo que vão fazer um laboratório de idéias, que vão promover encontros mensais com os funcionários, mas na outra ponta, anunciam que atestado de horas não serão mais válidos, anunciam no apagar das luzes que postos de trabalho serão extintos, etc. Qual o sentido de trabalhar sem ser ouvido, para melhor executar o processo? Trabalhar com qual motivação, sendo constatemente atacado? Em qual mentira vou acreditar?

E uma péssima característica, marcante no serviço público, é que os trabalhadores que têm ideias inovadoras que acrescentam valor ao serviço prestado são mal vistos e admoestados pelos “gestores”, os trabalhadores proativos são encarados como ameaças.

Deve ser por isso que sempre abaixam meio ponto nas minhas avaliações de desempenho, eu que lute pra tentar alguma promoção e diminuir a minha sensação de fracasso.

“Não pense muito! Faça seu arroz e feijão! Nada vai mudar, você não é o governo! Ótima ideia a sua mas não vamos aproveitá-la.”

Fazendo o que faço há dez anos já experimentei muitas sensações, mas me lembro mais das ruins, elas prevalecem sobre as boas. São muitas raivas e algumas alegrias que colhi ao longo do tempo. Antigamente, pra me consolar e suprir a falta de reconhecimento profissional, tinha um status dizer que trabalho na empresa tal, hoje nem isso…

O que valeu foram os momentos não palpáveis que vivi, certamente eu não conseguiria vivê-los se trabalhasse em outro lugar, pois iria ganhar menos ainda…

A minha luta no rolê sindical representando a categoria, de certa forma, é para dar algum sentido e dignidade ao que faço, afinal, apesar da grana, eu não saía da minha casa despendia 10 horas da minha vida pra fazer um serviço mal feito, se fosse assim eu não sofreria dessas angústias. É dolorido demais não saber o porquê do seu trabalho, apesar da grana nem tudo na vida laboral se resume a ela.

Expio a culpa por ter me deixado levar pelo comodismo da estabilidade, não fui corajosa em jogar tudo pro alto e ser feliz em outro canto; quando a gente tem filho, pra garantir o futuro acaba se submetendo à essas coisas e quando cai na real já se passaram 10 anos…

Era só um desabafo mesmo…

Será que um dia vou ter a dádiva de trabalhar com o que realmente gosto?

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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