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7° dia

Em todos esses anos na empresa não convivi contigo, só falei com você uma vez. No entanto fomos companheiros de profissão. Trabalhamos próximos um do outro, que ironia do destino!

A forma como você resolveu finalizar seu ciclo por aqui e a memória que as pessoas têm de você, tornam sua decisão ainda mais surpreendente…

Trabalhamos numa profissão em que somos consumidos, inclusive espiritualmente. Há quem beba, quem fuma maconha e os que tomam antidepressivos, nem sempre essas drogas fazem efeito; tudo para suportar cada vez mais o fardo de 5 milhões na nossa cabeça…

Li numa reportagem que o índice de suicídios aumentou em quase 3 por cento no Brasil, no ano passado e a maioria eram homens, grande parte sofria com a depressão e ainda há resquícios da opressão masculina na sociedade. Quando se diz que um homem não deve chorar e expôr suas emoções faz com que ele, deprimido se contenha e não exponha o que de fato acontece em seu ser.

Entre as pessoas de mais idade, há maior preconceito com a saúde mental e tendência de achar que a depressão é frescura, é maior. Não sei se você se enquadrava nisso e quando resolveu mudar era tarde demais…

Ainda reflito sobre quanto o trabalho foi opressor e você o escolheu, justamente pra ser livre e literalmente alçou vôo. Lidamos com alguns códigos As no trabalho, mas de outros… É a primeira vez que tenho conhecimento de que um colega fez isso no local de trabalho, imagino ou tento imaginar, a sensação que os outros tiveram ao socorrer o colega naquela situação…

É emblemática e simbólica a sua escolha. Durkheim disse que o suicídio é um fato social: uma série de coisas que “desarranjam o organismo harmônico da sociedade” e são as causas externas ao indivíduo que interferem nesta decisão. Trabalhamos num serviço difícil e a todo momento estamos expostos a violência física e psicológica, essa última praticada também pela empresa, ao não nos ouvir e fazer melhorias nas condições de trabalho. Estamos adoecendo, depressão e ansiedade, bipolaridade, desesperança, agonias da pós modernidade…

Que você encontre a tranquilidade que não teve aqui, descanse em paz.

Por Astrovalda Junqueira

Ghost Writter, "Literateuta"
"Escrever para não enlouquecer, novo bálsamo à alma"

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